O veneno dos caracóis do mar foi capaz de substituir a morfina

A pesquisadora da Universidade de Copenhague, Bea Ramiro, começou a estudar o caracol marinho Conus rolani nas águas

Ilha filipina de Cebu em 2018.Os cientistas já sabiam que o veneno de outra espécie de caracol marinho, Conus magus, poderia ser usado como analgésico. Pode substituir a morfina e os opioides e tem menos efeitos colaterais. Os pesquisadores esperavam poder encontrar uma nova espécie de caracol marinho cujo veneno teria um efeito melhor se usado de forma mais simples. Ao estudar o veneno do Conus rolani, os cientistas descobriram uma toxina que bloqueia a dor de uma forma completamente diferente das drogas conhecidas como a morfina, evitando assim alguns dos efeitos mais devastadores da morfina nos seres humanos.

Hoje um medicamento baseado no veneno do caracol Conusmagus já está disponível no mercado médico. É usado para lesões nas costas e no tratamento de câncer. Porém, o preço do medicamento é alto e o método de uso é complicado. O medicamento deve ser injetado no sistema nervoso central, por exemplo, por meio de um implante espinhal; A equipe por trás do novo estudo espera que a descoberta de uma nova toxina nos caracóis Conus rolani os ajude a desenvolver um analgésico mais eficaz e mais fácil de usar.

Cientistas obtiveram veneno de caracol marinho e o separaramem diferentes componentes para ver quais deles têm efeito nos ratos. Os pesquisadores criaram “gêmeos” sintéticos para mais de 100 toxinas encontradas no veneno do caracol marinho. Posteriormente, fizeram uma radiografia da toxina, que mostrou potencial. “Pudemos ver que a estrutura da toxina do veneno do caracol marinho se assemelha à somatostatina, um hormônio que regula a sensação de dor no corpo humano. A toxina pode ter um efeito semelhante”, diz Helena Safavi, professora do Departamento de Ciências Biomédicas da Universidade de Copenhague.

“Fiquei surpreso que a toxina fosse tão eficaz e durasse mais que a morfina”, acrescentou Safavi.

Conus rolani vive a uma profundidade de 210 metrosao largo da costa de Cebu, nas Filipinas. Esta espécie é apenas uma das mais de 800 espécies de caracóis marinhos, a maioria das quais usa veneno para caçar. A estratégia de caça de Conus rolani é mais eficiente que outras espécies. Tendo envenenado sua presa com veneno, o caracol espera pacientemente. O veneno começa a agir, e depois de três horas a vítima fica inativa, então o caracol a pega com sua boca desdentada. Um peixe enfraquecido não pode resistir e ferir o caçador. Uma estratégia semelhante existe em cascavéis e víboras, mas os pesquisadores estão vendo isso pela primeira vez em um caracol.

Não só os caracóis marinhos inspirampesquisadores para desenvolver novos medicamentos, diz Helena Safavi. “Existe um medicamento bastante comum no mercado chamado Capoten, usado para tratar a pressão alta, e é baseado em veneno de cobra”, explica. “Podemos aprender muito com a natureza. E isso faz sentido, porque a natureza teve milhões de anos para aperfeiçoar, por exemplo, venenos sedativos, quando fazemos isso há apenas algumas centenas de anos. Portanto, a natureza nos oferece um atalho."

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